E se você não me procura…

As vezes brigo com o mundo. Brigo com tudo, com todos. Amigos, inimigos, amores, espelho, porta de casa que não abre… E no fundo acabo descobrindo que queria mesmo é brigar comigo.
Eu que não aprendo que não posso cobrar que as outras pessoas tenham as mesmas atitudes que eu teria. Pessoas são diferentes. Eu sou previsível. E não é porque eu sou assim que eu posso exigir que todos sejam. Não é porque eu sou transparente que eu posso exigir que os outros sejam. Não é porque eu me posiciono firmemente, ou burramente?, que eu posso exigir que as outras pessoas compreendam que eu tenho meus motivos. Que foi a minha história que me fez assim.
E quando eu faço as coisas que eu julgo corretas, mesmo que minha visão do correto seja deturpada para alguns, e quando faço as coisas que gostariam que fizessem comigo, como, falar a verdade na minha cara, brigar comigo para que eu não brigue; acabo ferrando com tudo.
Aí as pessoas não me entendem. E eu não entendo as pessoas, e brigo, e me arrependo, e choro, e volto a brigar, e começo a também não me entender.
Depois é só culpa e espera. Espera pelo toque do telefone. Espera pelo e-mail ou pela chamado no comunicador, espera pela compreensão, espera pelo perdão, espera por um “eu te entendo” que não virá.
O dia seguinte é sempre assim. Um vazio aqui dentro. Uma decepção silenciosa que me oprime cada vez que me vejo em mim. E o resto do dia é marasmo, é aguardo, é silêncio. Houve o tempo em que eu acreditava que poderia me mudar. Hoje, apenas tento evitar que estas coisas aconteçam, e quando acontecem, fazer o quê? Dar os ombros e continuar. Digerir estes sábados e estes domingos calados, algumas vezes como a garganta engasgada, outras, como o silêncio após os estrondos. Digerir.
Levantar como se eu não estivesse triste. Levantar como se minhas espectativas não tivessem sido frustradas, quebradas. Levantar como se a naturalidade das minhas explosões sejam tão aceitas quanto as inevitáveis catástrofes naturais, já que ninguém questiona a erupção de um vulcão. E reconstruir.
Eu posso sobreviver com isso, e se você não me procura, é porque consegue viver bem, depois.
Que bom. Talvez no final eu descubra que a única pessoa que sai realmente triste e decepcionada após essas minhas coisas, seja eu. Assim aprenderei a me sentir melhor, afinal, me machucar é até normal. O problema é machucar os outros.

(Caio F. Abreu)

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